Zé Carioca e o estereótipo do Brasil

 

Pato Donald número 1, 1950.

Pato Donald número 1, 1950.

Zé Carioca é um personagem bastante controverso: ele é brasileiro, mas foi criado pelos estúdios Disney nos EUA. Para uns, é motivo de orgulho, havendo até quem quisesse que fosse a mascote dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, mas, por outro lado, ele representa um Brasil de estereótipos totalmente negativos. Na tentativa de celebrar o povo brasileiro, Disney criou essa estranha “homenagem”: um papagaio malandro e sem escrúpulos, egoísta, desonesto e mulherengo, que não consegue pronunciar a palavra “trabalho” sem um gemido de desgosto. Se a intenção de criar um personagem brasileiro era boa, isso se perdeu em algum lugar no processo criativo.

É fato que Zé Carioca é um cartoon que completou 70 anos de vida em 2012. Essa durabilidade não prova nada, mas indica que ele merece no mínimo um pouco de atenção, afinal, foi um personagem secundário desenvolvido pelos motivos errados que, de alguma maneira, até agora sobreviveu ao teste do tempo.

A Editora Abril lançou recentemente o especial “Zé Carioca – 70 Anos”, uma ótima coletânea em 2 volumes publicados em outubro e novembro. Como a distribuição é setorizada (chega primeiro no sudeste do país e depois de meses – com sorte – nos outros lugares), adquiri o meu encomendado pela Livraria Cultura, sem custos adicionais. Além da boa seleção de histórias, há textos explicativos e ilustrados que contam a interessante história do papagaio carioca. Há mais no Zé do que aparenta.

Zé Carioca 70 anos

Durante os anos 1930 e a Segunda Guerra Mundial houve o que foi chamado “Política de Boa Vizinhança” dos Estados Unidos, com a intenção de estreitar os laços com os outros países da América latina. O resultado foi de trocas comerciais e culturais – com o prevalecimento da influência dos EUA. Para contribuir nessa aproximação cultural Walt Disney foi contratado para criar filmes animados nos quais os seus personagens norte-americanos interagiam com os latino-americanos. No Brasil, ele e sua equipe fizeram escala em Belém e depois visitaram o Rio de Janeiro, chegando até mesmo a conhecer o presidente Getúlio Vargas.

Dos estudos artísticos que fizeram pela América latina, resultaram os filmes “Alô, Amigos” (1942), que marca a estreia de Zé Carioca, e “Você já foi à Bahia?” (1944). O estereótipo do Brasil dessas animações é o do país rural, coberto de vida selvagem e natureza exuberante, o que o tornava interessante para o gosto pelo exótico, muito difundido nas grandes potências.  Quanto ao personagem, no primeiro filme Zé é apenas um papagaio divertido e caloroso que leva Donald para tomar cachaça e dançar samba no Rio de Janeiro. Nas devidas proporções, ele era um personagem tão inocente quanto qualquer outro do estúdio.

http://www.youtube.com/watch?v=lUMuOXpij6sO trecho de Aquarela do Brasil

http://www.youtube.com/watch?v=lUMuOXpij6s
O trecho de Aquarela do Brasil

A mudança veio nas tiras em quadrinhos publicadas em jornal semanalmente, de 1942 a 1944. Desde sua primeira tira o personagem brasileiro tem sua índole distorcida: ele vai a um restaurante caro pensando em como fazer para não pagar a conta. A partir daí, só malandragem. Sempre tentando obter vantagens, mente descaradamente todo o tempo. Mesmo morando em um barraco no lixão, passa-se por rico, principalmente quando o objetivo é dar em cima de alguma mulher (ou passarinha, se preferir). E a cada mulher que conhece é uma nova obsessão. Os 2 anos de tiras de jornal apoiam-se em enrascadas criadas pelo próprio Zé com suas mentiras, sempre atrás de algum negócio fácil e lucrativo e de um rabo-de-saia, precisando criar novas mentiras para safar-se com as penas intactas.

Desde o começo ele conheceu Rosinha, aquela que um dia seria sua noiva (e permanece assim até a atualidade, enrolada por 70 anos). Ela chega até a deixá-lo ao descobrir que ele tinha outra mulher em vista. A solução pensada por Zé: comprar uma arma e ameaçar se matar para que ela volte para ele.

Nem todas as histórias antigas de Zé seguem essa tendência de malandragem. Algumas resgatam a forma alegre e ingênua de aproveitar a vida vista em “Alô, Amigos”, mas a marca do personagem ficou. São 70 anos de vagabundagem, trapaças, golpes, picaretagens e dívidas nunca pagas.

E eu ainda disse que os especiais da Abril estão muito bons? Sim.

Uma história, inclusive em quadrinhos, existe em pelo menos dois planos: um é o da história em si mesma. O outro é o dos vários significados possíveis dessa história, através da forma como ela relaciona-se com o restante do mundo. Zé Carioca é totalmente legítimo como personagem cartunesco dentro do contexto de suas próprias páginas. Proporciona algumas histórias divertidas e outros personagens memoráveis, como o urubu Nestor.

zé

A outra face da moeda não é nada bela. Os significados de Zé Carioca mostram conduta desonesta em revistas consideradas infantis, fazem comédia desprovida de crítica com assuntos que não deveriam ser banalizados. Acima de tudo, Zé Carioca carrega fortes preconceitos contra o homem latino. Zé é pobre porque rejeita trabalhar, ao contrário do suprassumo do self-made man, o tio Patinhas, que seu criador, Carl Barks, sempre fez questão de retratar como sendo o pato mais rico do mundo mediante o suor de seu rosto. Mesmo o azarado do Donald possui a vivacidade de sempre estar em novos empregos, lutando dignamente. Ainda pior, Zé, o primeiro personagem Disney brasileiro, é desonesto e até ladrão.

Quem aprecia Zé Carioca pelo puro entretenimento das histórias não pode ignorar esse lado negativo tão evidente em grande parte da obra com o personagem. Os próprios autores não ignoraram. Com o passar do tempo as histórias de Zé foram atenuadas. Assim, ao invés de roubar, ele compra fiado. Permanece fiel a Rosinha, cuida de dois sobrinhos e joga bola no time do bairro. Muitos de seus golpes visando lucro próprio terminam em Zé levando bronca de seus amigos ou vendo-se obrigado a reverter seus ganhos em doações de caridade. Se antes Zé Carioca estava do lado egoísta e trambiqueiro do muro, mais recentemente o personagem anda no meio termo, permitindo-se também arrependimento e altruísmo.

The three Caballeros: Zé, Panchito, o galo mexicano, e Donald

The three Caballeros: Zé, Panchito, o galo mexicano, e Donald

Não se trata da necessidade de moralismo, mas, se Zé é uma imagem do Brasil vista do exterior, essa imagem precisa de melhor cuidado. O personagem realmente tornou-se brasileiro: desde os anos 60 suas HQs foram produzidas por autores da terra, o que o deixou mais legítimo. Também a imagem do papagaio foi modificada. Como dito acima, ele se regenerou em vários aspectos. Teve que ser adaptado para novos tempos. Inclusive, parou de fumar charuto e se embriagar, algo normal nos quadrinhos na primeira metade do século XX, mas um tabu hoje em dia. Trocou o terninho e guarda-chuva por calça jeans, camiseta e boné para trás (eu prefiro o visual antigo).

Defeitos e mudanças à parte, Zé Carioca é uma das revistas mais antigas ainda em publicação no Brasil. São mais de 50 anos surgindo nas bancas continuamente, firme e forte. Mereceu ser conhecido, repreendido e compreendido.

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